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"Neste Blog 10% é mentira, o resto é invenção"

letras

PENA DE VIDA

Tenho pena de quem parte
Mais ainda de quem fica
Escravo da própria sorte
Sem Norte e sem guarida
Se é um crime a pena de morte
Maior é a pena de vida

Condenado a sentença do pouco
E o pouco colher nas esquinas
A sombra da lei do mais forte
E pelo porte já não revida
Se é um crime a pena de morte
Maior é a pena de vida

E quem no olhar não mais se comove
E já nem move a mão estendida
Quem na carne não sente o corte
Também é morte presente em vida
Se é um crime a pena de morte
Maior é a pena de vida

CHÃO DE ASFALTO



  • Um manto preto feito lava encobre a terra por hora encerra pelo chão o que era semente feito solvente escorre e dissolve a serra que ao pé desterra feito pó junto a vertente
    o solo poro que drena chuva sagrada e pela vala resvala e volta pro ninho e de mansinho amansa o calor da estrada serão pegadas apagadas do caminho
    pisa na vida este piso acelerado pois o passado era de barro e se quebrou pisou a terra a calma e o corpo ultrapassados atropelados no progresso que chegou
    chão de asfalto não cumpriu sua promessa nos atravessa olhando no retrovisor num corredor que só aumenta nossa pressa nos torna presa com o pé no acelerador
    não há correnteza que corra contra a corrente nem o presente que ascende rumo ao passado tapar banhado romper rio secar nascente só rio ardente sobre o solo derramado

RESTOS

Quem são eles
Estes desvalidos
Que guerra perderam?
Por quem foram vencidos?
Passam a vida passando
Levando o tempo de arrasto
Juntando nossos pedaços
Restos do nosso rastro

Gente de restos
Restos de gente
Homens vivem de sobras
Assim vivem Homens que sobram

Humildes humilhados
Aos poucos deixados de lado
Condenados a um destino
Por outros destinados
São muitos que valem pouco
Por pouco são descartados
Como moeda de troco
Na troca de alguns trocados



CAIXA DE BRINQUEDOS 



Caminhos por onde andei
Lugares de onde vim
De tudo aquilo que sei
Guardo dentro de mim
Uma Caixa de brinquedos
Baú de quinquilharias
Dentro dela carrego
Minhas alegorias

Nada de muito útil
para que não me roubem o dia
são pequenas invenções
pra caber na poesia

Poetinha... 
Criança a brincar sozinha
 Fazendo seu alarido
Quase sempre é só ele
 Que escuta o próprio zumbido

A natureza de ser
Aquilo que tem vontade
E a leveza de não ter
Que carregar a verdade
Invento uma canção
Deixo na caixa guardada
Pra quando quiser brincar
E rir da própria risada

É plantar uma semente
Somente para ver plantada
Ser a terra que tudo acolhe
E vive sem colher nada

Poetinha... Criança a brincar sozinha
 Fazendo seu alarido
Quase sempre é só ele
 Que escuta o próprio zumbido.


Pedacito del cielo




En el tiempo de estar solo

Salió de mis sueños

Aterrizó en mi camino

Para que él alzara vuelos



Con aire de un querubín

Llenó mis manos de tierra

Vino para enseñarme

La vida no queda vieja                                                 



Gracias hermoso niño

Por acariciar mis anhelos

Gracias hermoso niño

Pedacito Del cielo



Le di mis ojos

Ando ciego por ti

No peleo más contra el tiempo

 Él te trajo hasta mí

Que mi canto arrulle tus sueños
Mientras hunde tus pasos
Y cuando yo sea el menor
Póngame a dormir en tus brazos

Gracias hermoso niño
Por  acariciar mis anhelos
Gracias hermoso niño
Pequeño pedazo del cielo 









MENINO JOÃO PESCADOR





Por ser filho de pescador

João já nasceu deste jeito

Um pé na terra outra n’água

Com um rosário no peito

É preciso proteção

Disse sua mãe Maria

A vida é como a lagoa

Nem sempre é calmaria.



Aqui por estas margens

Têm vários iguais a João

Nascem com uma certeza

A pesca por profissão

No barco que foi do avô

Agora os tempos são outros

A pesca é jogo de sorte
Que é reservada pra poucos

Pula da cama João
Antes de raiar o dia
Parelha sai para o mar
Que hoje tem pescaria
Menino a navegar
Entre a popa e a proa
Barquinhos de corticeira
Que atou atrás da canoa

João adormece na proa
E José sonha acordado
Esse ano salga a lagoa
Vem a tainha e o linguado
Na malha fina da rede
Arrasta a realidade                                   
Lagoa ficou pequena
Num mar de necessidades          

Mas José é pescador
Esta é sua vocação
Tem água doce nas veias
Nos olhos o olhar de João
A quem o pai é herói
De remo leme e canoa
E que não troca por nada
Viver aqui na lagoa

Pula da cama João
Antes de raiar o dia
Parelha sai para o mar
Que hoje tem pescaria
Menino a navegar
Entre a popa e a proa
Barquinhos de corticeira
Que atou atrás da canoa



Estrelas









Estrela pequenina


Na noite a lumiar   


Pensei... Por ser assim


Nem iria me alcançar




Brilho de pouco lume
Um vaga-lume no ar
E eu vagamente vagando
Vieste me despertar

Não há diferença entre estrelas
Entre gente também não há
Pessoas são estrelas
Muda é a distância do olhar
Não há diferença entre estrelas
Entre gente também não há
Pessoas são estrelas
Sua natureza é brilhar

Em meio a tantas outras
Quase a querer te apagar
Estrela pequenina
Insiste também em brilhar
Outras de facho intenso
No imenso universo lunar
Tocou meu pequeno verso
Que agora quer te tocar

Não há diferença entre estrelas
Entre gente também não há
Pessoas são estrelas
Muda é a distância do olhar
Não há diferença entre estrelas
Entre gente também não há
Pessoas são estrelas
Sua natureza é brilhar




As Palavras e as Coisas


É preciso um novo olhar
Para aquilo que já foi visto
A sempre um novo lugar
Para aquilo que já foi dito
Sob o véu do cotidiano
As cores vão desbotando
Sob o céu que é da retina
Vai na rotina se apagando

Depois de visto e revisto
Os caminhos viram pegadas
E agora já não importa
A beleza das estradas
As coisas já têm seu nome
Marcados a ferro e brasa
Apontando nosso caminho

Cortando a ponta das asas



QUANDO CANTA O CAMPEIRO







Quando canta o campeiro

Sustenta seu verso no braço

Traz pra dentro do canto

Tudo que pega no laço



São ritos e mitos pampeanos
De carreiras e gineteadas
Carretas, cavalos e tropas
Tropeiros cruzando estradas

Quando canta o campeiro
Deixa na poeira o discurso
Povoa de ação seu saber
Devolve a vida ao seu curso

É lida, campo e campeiro
Parte do mesmo jogo
Seu canto é marcação
Tatuado a ferro e fogo

Juntam-se verbos aos gestos
Palavras à emoção
Em cantar a sua lida
Encanta a vida peão

Quando canta o campeiro
Me faz pensar na cidade
Naquele que o trabalho
Tirou sua identidade

Não canta mais sua lida
Sufoca sua vocação
E agora a força do braço
É pra sustentar o patrão

Quem sabe campeiro o seu canto
Devolva o prazer do ofício
Pra quem perdeu horizontes
Em paredes de edifícios

Ofuscado por tanta luz
Relembra os pirilampos
Seu canto agora é saudade
Do tempo que era campo

Juntam-se verbos aos gestos
Palavras à emoção
Em cantar a sua lida
Encanta a vida peão


MI CAMINO





No hay porque desistir

Se algun sueño murrió

Ya decía mi abuello

Antes él del que yo



y asi seguimos adelante

erguendo otras banderas

Peleando en otras guerras

Cruzando nuevas fronteiras



Las certezas son buenas

cuando quedan viejas

Para alimentar nuevas dudas
que sólo crecen en sus tierras

quería poder prevenirle
quizás, evitarle las penas
pero cada cual com su camino
cada camino com sus piedras

no háy como saber
antes di caminar
tampoco en el mismo rio
se puede dos veces pisar

todos caminos son eternos
aunque lejos pueda mirar
somos siempre los mismos
en el arte de cambiar



Ser guri é pra vida inteira








Um rio que corre, corre um guri

Um rio que corre, corre um guri

Sol nas margens fins de tarde feitas pra ti



A minha terra é água
A minha alma é rio
No Barro de suas margens
Um corpo se esculpiu
De todas minhas viagens
Que faço através da lembrança
No espelho de tuas águas
Me vejo sempre criança

Rio de minha infância
Mergulho mais uma vez
Tudo que ali eu fiz
A vida não desfez
Feito o nó do balanço
Que deixei atado à figueira
Me diz embalando o tempo
Ser guri é pra vida inteira


Retrato que não desbota
Mesmo correndo distâncias
É sempre pintado mais forte
As cores da nossa infância
Todos os rabiscos da vida
Ficaram como gravuras
E as curvas deste rio
Foi a mais linda moldura

Rio de minha infância
Mergulho mais uma vez
Tudo que ali eu fiz
A vida não desfez
Feito o nó do balanço
Que ficou atado à figueira
Me diz embalando o tempo
Ser guri é pra vida inteira




ZÉ GRILO PESCADOR


Pedro aponta uma estrela
Entrega o leme a Zé Grilo
Que logo dá um cochilo
E já se perde ao Léu
Olha de novo pro céu
E vê tanta estrela brilhando
Acorda a parelha gritando
A todos dizendo assim
Mira outra estrela pra mim
Que aquela "nóis já passemo”

Ah! Zé Grilo pescador
É tua experiência
Que dribla até a ciência
Inventando teu próprio mundo
Porque sabes que no fundo
A vida é o que eu invento
E o teu desconhecimento
É que faz aumentar o mundo

Certa feita me disse 
Que com o amigo Martinho
Saíram com seu barquinho
Numa noite enluarada
Ainda de madrugada
Quando de relancina
Algo chamuscou-lhe a crina
Era o boi tá tá na Lagoa
Maniou o bicho na proa
E jogou-lhe água por cima


CANTADOR POPULAR






Vou pedindo licença

Permitam-me apresentar

Atendo pelo nome

De cantador popular



Não tenho credenciais

Sou dado as “desinportâncias”

Não trago por costume
Medir nem contar distâncias

Só sei que venho de longe
Por isso, não quero chegar primeiro
Falo pela experiência
O tempo me fez matreiro

Dispenso solenidades
Tampouco apresentação
Canto porque “my gusta”
Ouvir a minha canção

Pra quem é de competição
Convido pra umas carreiras
Minha arte eu deixo guardada
Do lado de lá da porteira
  
Quem junta quinquilharias
Vai se apegando a essas tralhas
E passam a medir os outros
Pelo numero de medalhas

Chego cantando meus versos
E já vai se fechando a clareira
Só então sou autoridade
Abraçado a guitarra parceira

Entre galpões, praças e esquinas
Pra mim não importa o lugar
Gosto de ouvir quando passo
Lá vai um cantador popular

Vou dizendo às coisas que penso
E o que penso pra alguns não é bom
Por isso não espero de todos
Aplauso e admiração

Não sou melhor que ninguém
Pois há tantos iguais a mim
E pra eles que hoje eu canto
É por eles que hoje eu vim


MINUANO


Sinto, chegou o minuano
Varrendo o verão em abril
Aqui no garrão do Brasil
Vem mostrando as frestas das portas
Arrancando as folhas mortas
Cobrindo o pago de frio

Vento que acende o fogo
E reacende um antigo ritual
Um atavismo bagual
No meu chão cultuado
Herança de um Estado
Que mantém sua chama rural

Cevo o mate frente ao fogo
E abraço a guitarra parceira
E tu cruzando a fronteira
Vem assoviando coplas
Deixando em mim suas marcas
De corpo e alma campeira

Como pode? um vento soprar saudades
De um tempo que não vivi
De campos que não corri
De lidas que não lidei
Da pampa foi o que herdei
O que contigo aprendi

Sopra, vento minuano
Em ti o passado revive
As coisas que não tive
É minha outra metade
Sinto o gosto da liberdade
Só em ti ver correr livre

Vai, vento mundano
E faz o teu pago fraterno
Tens o extinto materno
Trazendo o aconchego e a calma
E eu...Visto o poncho da tua alma
Pra atravessar este inverno.



BANCO DE AREIA


O tempo e duas correntes
Te ergueram no horizonte
Estreita estrada pro nada
Ardente e precária ponte
Refúgio de navegantes
Te chamam banco de areia
De dia a sentar gaivotas
À noite a deitar sereias

Ecoa a voz do silêncio
Que a muito eu não ouvia
Imagem parada no tempo
E o tempo lá transcorria
Calmo e alheio a tudo
E tudo o banco partia
Lagoa e meu peito ao meio
Entre tristeza e alegria

Na solidão deste encontro
Numa paz prematura
O mais primitivo reencontro
Entre criador/criatura
Neste templo sagrado
Pedaço da eternidade
E o homem castelo de areia
Seu sonho de liberdade

Olhando a cidade distante
Suas torres e suas antenas
Homens inventando a pressa
E a pressa de forma serena
Matando a alma dos homens
Que agora não tem mais tempo
De ver os bancos de areia
Que trazem dentro do peito


ROTINA DO MAR

Concha arejando o rancho
seu morador já foi embora
Lagosta tecendo renda
siri arrastando as esporas
peixe martelo pregando
santa fé no galpão
sorro Robalo esperando
a sobra do tubarão

Sou filho também dessas águas
tempo me fez uma ilha
sou um peixe fora d'água
preso na ventania

um xucro cavalo marinho
bandeou pro lado de lá
tartaruga não sai de casa
não sabe em quem confiar
um bando de estrela do mar
emocionou o mexilhão
morreram na beira da praia

e viraram constelação

REFRÃO

água viva vestida de prenda
o dourado envermelhou
Polvo com um poncho de braços
e ninguém mais lhe abraçou
um peixe espada Charrua
não para mais de pelhar 
não sabe onde pôs a bainha
pra sua espada guardar

REFRÃO

arraia arrastando a saia
por um salmão estrangeiro
ostra coração de pedra
deixou o marisco solteiro
aqui tudo se demora
disse a baleia experiente
ainda hoje ela estranha
um peixe ter virado gente

SOB O SOL

O leste é meu Norte
Pra lá firmei o meu leme
O sol só levanta
Pra quem espera por ele
Abri a janela
Reguei o quintal
o que vale é a estrada
A minha é sob o sol

Muitos são os caminhos
Que levam pro mesmo lugar
E o melhor de quando termina
É poder recomeçar
O meu barco é sem rumo
Não preciso de Farol
o que vale é a estrada
A minha é sob o sol

O Porto é só descanso
Para uma nova partida
Para que aja reencontro
É preciso despedida
Navego sem destino
Porque sei que no final
O que vale é a estrada
A minha é sob o sol


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