PENA DE VIDA
Tenho pena
de quem parte
Mais ainda
de quem fica
Escravo da
própria sorte
Sem Norte e
sem guarida
Se é um
crime a pena de morte
Maior é a
pena de vida
Condenado a
sentença do pouco
E o pouco
colher nas esquinas
A sombra da
lei do mais forte
E pelo porte
já não revida
Se é um
crime a pena de morte
Maior é a
pena de vida
E quem no
olhar não mais se comove
E já nem move
a mão estendida
Quem na
carne não sente o corte
Também é
morte presente em vida
Se é um
crime a pena de morte
Maior é a
pena de vida
CHÃO DE ASFALTO
RESTOS
Quem são eles
Estes desvalidos
Que guerra perderam?
Por quem foram vencidos?
Passam a vida passando
Levando o tempo de arrasto
Juntando nossos pedaços
Restos do nosso rastro
Gente de restos
Restos de gente
Homens vivem de sobras
Assim vivem Homens que sobram
Humildes humilhados
Aos poucos deixados de lado
Condenados a um destino
Por outros destinados
São muitos que valem pouco
Por pouco são descartados
Como moeda de troco
Na troca de alguns trocados
CAIXA DE BRINQUEDOS
Caminhos por onde andei
Lugares de onde vim
De tudo aquilo que sei
Guardo dentro de mim
Uma Caixa de brinquedos
Baú de quinquilharias
Dentro dela carrego
Minhas alegorias
Nada de muito útil
para que não me roubem o dia
são pequenas invenções
pra caber na poesia
Nada de muito útil
para que não me roubem o dia
são pequenas invenções
pra caber na poesia
Poetinha...
Criança a brincar sozinha
Criança a brincar sozinha
Fazendo seu alarido
Quase sempre é só ele
Que escuta o próprio zumbido
A natureza de ser
Aquilo que tem vontade
E a leveza de não ter
Que carregar a verdade
Invento uma canção
Deixo na caixa guardada
Pra quando quiser brincar
E rir da própria risada
É plantar uma semente
Somente para ver plantada
Ser a terra que tudo acolhe
E vive sem colher nada
Poetinha... Criança a brincar sozinha
Fazendo seu alarido
Quase sempre é só ele
Que escuta o próprio zumbido.
Pedacito del
cielo
En el tiempo de estar solo
Salió de mis sueños
Aterrizó en mi camino
Para que él alzara vuelos
Con aire de un querubín
Llenó mis manos de tierra
Vino para enseñarme
La vida no queda
vieja
Gracias hermoso niño
Por acariciar mis anhelos
Gracias hermoso niño
Pedacito Del cielo
Le di mis ojos
Ando ciego por ti
No peleo más contra el tiempo
Él
te trajo hasta mí
Que mi canto arrulle tus sueños
Mientras hunde tus pasos
Y cuando yo sea el menor
Póngame a dormir en tus brazos
Gracias hermoso niño
Por
acariciar mis anhelos
Gracias hermoso niño
MENINO JOÃO PESCADOR
Por ser filho de pescador
João já nasceu deste jeito
Um pé na terra outra n’água
Com um rosário no peito
É preciso proteção
Disse sua mãe Maria
A vida é como a lagoa
Nem sempre é calmaria.
Aqui por estas margens
Têm vários iguais a João
Nascem com uma certeza
A pesca por profissão
No barco que foi do avô
Agora os tempos são outros
A pesca é jogo de sorte
Que é reservada pra poucos
Pula da cama João
Antes de raiar o dia
Parelha sai para o mar
Que hoje tem pescaria
Menino a navegar
Entre a popa e a proa
Barquinhos de corticeira
Que atou atrás da canoa
João adormece na proa
E José sonha acordado
Esse ano salga a lagoa
Vem a tainha e o linguado
Na malha fina da rede
Arrasta
a realidade
Lagoa ficou pequena
Num mar de necessidades
Mas José é pescador
Esta é sua vocação
Tem água doce nas veias
Nos olhos o olhar de João
A quem o pai é herói
De remo leme e canoa
E que não troca por nada
Viver aqui na lagoa
Pula da cama João
Antes de raiar o dia
Parelha sai para o mar
Que hoje tem pescaria
Menino a navegar
Entre a popa e a proa
Barquinhos de corticeira
Que atou atrás da canoa
Brilho de pouco lume
Estrelas
Estrela pequenina
Na noite a lumiar
Pensei... Por ser assim
Nem iria me alcançar
Brilho de pouco lume
Um vaga-lume no ar
E eu vagamente vagando
Vieste me despertar
Não há diferença entre estrelas
Entre gente também não há
Pessoas são estrelas
Muda é a distância do olhar
Não há diferença entre estrelas
Entre gente também não há
Pessoas são estrelas
Sua natureza é brilhar
Em meio a tantas outras
Quase a querer te apagar
Estrela pequenina
Insiste também em brilhar
Outras de facho intenso
No imenso universo lunar
Tocou meu pequeno verso
Que agora quer te tocar
Não há diferença entre estrelas
Entre gente também não há
Pessoas são estrelas
Muda é a distância do olhar
Não há diferença entre estrelas
Entre gente também não há
Pessoas são estrelas
Sua natureza é brilhar
As Palavras
e as Coisas
É preciso um novo olhar
Para aquilo que já foi visto
A sempre um novo lugar
Para aquilo que já foi dito
Sob o véu do cotidiano
As cores vão desbotando
Sob o céu que é da retina
Vai na rotina se apagando
Depois de visto e revisto
Os caminhos viram pegadas
E agora já não importa
A beleza das estradas
As coisas já têm seu nome
Marcados a ferro e brasa
Apontando nosso caminho
Cortando a ponta das asas
QUANDO CANTA
O CAMPEIRO
Quando canta o campeiro
Sustenta seu verso no braço
Traz pra dentro do canto
Tudo que pega no laço
São ritos e mitos pampeanos
De carreiras e gineteadas
Carretas, cavalos e tropas
Tropeiros cruzando estradas
Quando canta o campeiro
Deixa na poeira o discurso
Povoa de ação seu saber
Devolve a vida ao seu curso
É lida, campo e campeiro
Parte do mesmo jogo
Seu canto é marcação
Tatuado a ferro e fogo
Juntam-se verbos aos gestos
Palavras à emoção
Em cantar a sua lida
Encanta a vida peão
Quando canta o campeiro
Me faz pensar na cidade
Naquele que o trabalho
Tirou sua identidade
Não canta mais sua lida
Sufoca sua vocação
E agora a força do braço
É pra sustentar o patrão
Quem sabe campeiro o seu canto
Devolva o prazer do ofício
Pra quem perdeu horizontes
Em paredes de edifícios
Ofuscado por tanta luz
Relembra os pirilampos
Seu canto agora é saudade
Do tempo que era campo
Juntam-se verbos aos gestos
Palavras à emoção
Em cantar a sua lida
Encanta a vida peão
MI CAMINO
No hay porque desistir
Se algun sueño murrió
Ya decía mi abuello
Antes él del que yo
y asi seguimos adelante
erguendo otras banderas
Peleando en otras guerras
Cruzando nuevas fronteiras
Las certezas son buenas
cuando quedan viejas
Para alimentar nuevas dudas
que sólo crecen en sus tierras
quería poder prevenirle
quizás, evitarle las penas
pero cada cual com su camino
cada camino com sus piedras
no háy como saber
antes di caminar
tampoco en el mismo rio
se puede dos veces pisar
todos caminos son eternos
aunque lejos
pueda mirar
somos siempre los mismos
en el arte de cambiar
Ser guri é
pra vida inteira
Um rio que corre, corre um guri
Um rio que corre, corre um guri
Sol nas margens fins de tarde feitas
pra ti
A minha terra é água
A minha alma é rio
No Barro de suas margens
Um corpo se esculpiu
De todas minhas viagens
Que faço através da lembrança
No espelho de tuas águas
Me vejo sempre criança
Rio de minha infância
Mergulho mais uma vez
Tudo que ali eu fiz
A vida não desfez
Feito o nó do balanço
Que deixei atado à figueira
Me diz embalando o tempo
Ser guri é pra vida inteira
Retrato que não desbota
Mesmo correndo distâncias
É sempre pintado mais forte
As cores da nossa infância
Todos os rabiscos da vida
Ficaram como gravuras
E as curvas deste rio
Foi a mais linda moldura
Rio de minha infância
Mergulho mais uma vez
Tudo que ali eu fiz
A vida não desfez
Feito o nó do balanço
Que ficou atado à figueira
Me diz embalando o tempo
Ser guri é pra vida inteira
ZÉ GRILO PESCADOR
Pedro aponta uma estrela
Entrega o leme a Zé Grilo
Que logo dá um cochilo
E já se perde ao Léu
Olha de novo pro céu
E vê tanta estrela brilhando
Acorda a parelha gritando
A todos dizendo assim
Mira outra estrela pra mim
Mira outra estrela pra mim
Que aquela "nóis já passemo”
Ah! Zé Grilo pescador
É tua experiência
Que dribla até a ciência
Inventando teu próprio mundo
Porque sabes que no fundo
A vida é o que eu invento
E o teu desconhecimento
É que faz aumentar o mundo
Certa feita me disse
Que com o amigo Martinho
Saíram com seu barquinho
Numa noite enluarada
Ainda de madrugada
Quando de relancina
Algo chamuscou-lhe a crina
Era o boi tá tá na Lagoa
Maniou o bicho na proa
E jogou-lhe água por cima
CANTADOR POPULAR
Vou pedindo licença
Permitam-me apresentar
Atendo pelo nome
De cantador popular
Não tenho credenciais
Sou dado as “desinportâncias”
Não trago por costume
Medir nem contar distâncias
Só sei que venho de longe
Por isso, não quero chegar primeiro
Falo pela experiência
O tempo me fez matreiro
Dispenso solenidades
Tampouco apresentação
Canto porque “my gusta”
Ouvir a minha canção
Pra quem é de competição
Convido pra umas carreiras
Minha arte eu deixo guardada
Do lado de lá da porteira
Quem junta quinquilharias
Vai se apegando a essas tralhas
E passam a medir os outros
Pelo numero de medalhas
Chego cantando meus versos
E já vai se fechando a clareira
Só então sou autoridade
Abraçado a guitarra parceira
Entre galpões, praças e esquinas
Pra mim não importa o lugar
Gosto de ouvir quando passo
Lá vai um cantador popular
Vou dizendo às coisas que penso
E o que penso pra alguns não é bom
Por isso não espero de todos
Aplauso e admiração
Não sou melhor que ninguém
Pois há tantos iguais a mim
E pra eles que hoje eu canto
É por eles que hoje eu vim
MINUANO
Sinto, chegou
o minuano
Varrendo o
verão em abril
Aqui no
garrão do Brasil
Vem mostrando
as frestas das portas
Arrancando
as folhas mortas
Cobrindo o
pago de frio
Vento que acende o fogo
E reacende
um antigo ritual
Um atavismo
bagual
No meu chão
cultuado
Herança de
um Estado
Que mantém
sua chama rural
Cevo o mate
frente ao fogo
E abraço a
guitarra parceira
E tu
cruzando a fronteira
Vem assoviando coplas
Deixando em
mim suas marcas
De corpo e
alma campeira
Como pode? um vento soprar saudades
De um tempo
que não vivi
De campos
que não corri
De lidas que
não lidei
Da pampa foi
o que herdei
O que
contigo aprendi
Sopra, vento
minuano
Em ti o
passado revive
As coisas
que não tive
É minha
outra metade
Sinto o
gosto da liberdade
Só em ti ver
correr livre
Vai, vento mundano
E faz o teu
pago fraterno
Tens o
extinto materno
Trazendo o
aconchego e a calma
E eu...Visto o
poncho da tua alma
Pra
atravessar este inverno.
BANCO DE AREIA
O tempo e duas correntes
Te ergueram no horizonte
Estreita estrada pro nada
Ardente e precária ponte
Refúgio de navegantes
Te chamam banco de areia
De dia a sentar gaivotas
À noite a deitar sereias
Ecoa a voz do silêncio
Que a muito eu não ouvia
Imagem parada no tempo
E o tempo lá transcorria
Calmo e alheio a tudo
E tudo o banco partia
Lagoa e meu peito ao meio
Entre tristeza e alegria
Na solidão deste encontro
Numa paz prematura
O mais primitivo reencontro
Entre criador/criatura
Neste templo sagrado
Pedaço da eternidade
E o homem castelo de areia
Seu sonho de liberdade
Olhando a cidade distante
Suas torres e suas antenas
Homens inventando a pressa
E a pressa de forma serena
Matando a alma dos homens
Que agora não tem mais tempo
De ver os bancos de areia
Que trazem dentro do peito
ROTINA DO MAR
Concha arejando o rancho
seu morador já foi embora
Lagosta tecendo renda
siri arrastando as esporas
peixe martelo pregando
santa fé no galpão
sorro Robalo esperando
a sobra do tubarão
Sou filho também dessas águas
tempo me fez uma ilha
sou um peixe fora d'água
preso na ventania
um xucro cavalo marinho
bandeou pro lado de lá
tartaruga não sai de casa
não sabe em quem confiar
um bando de estrela do mar
emocionou o mexilhão
morreram na beira da praia
e viraram constelação
REFRÃO
água viva vestida de prenda
o dourado envermelhou
Polvo com um poncho de braços
e ninguém mais lhe abraçou
um peixe espada Charrua
não para mais de pelhar
não sabe onde pôs a bainha
pra sua espada guardar
REFRÃO
arraia arrastando a saia
por um salmão estrangeiro
ostra coração de pedra
deixou o marisco solteiro
aqui tudo se demora
disse a baleia experiente
ainda hoje ela estranha
um peixe ter virado gente
SOB O SOL
O leste é meu Norte
Pra lá firmei o meu leme
O sol só levanta
Pra quem espera por ele
Abri a janela
Reguei o quintal
o que vale é a estrada
A minha é sob o sol
Muitos são os caminhos
Que levam pro mesmo lugar
E o melhor de quando termina
É poder recomeçar
O meu barco é sem rumo
Não preciso de Farol
o que vale é a estrada
A minha é sob o sol
O Porto é só descanso
Para uma nova partida
Para que aja reencontro
É preciso despedida
Navego sem destino
Porque sei que no final
O que vale é a estrada
A minha é sob o sol
SOB O SOL
O leste é meu Norte
Pra lá firmei o meu leme
O sol só levanta
Pra quem espera por ele
Abri a janela
Reguei o quintal
o que vale é a estrada
A minha é sob o sol
Muitos são os caminhos
Que levam pro mesmo lugar
E o melhor de quando termina
É poder recomeçar
O meu barco é sem rumo
Não preciso de Farol
o que vale é a estrada
A minha é sob o sol
O Porto é só descanso
Para uma nova partida
Para que aja reencontro
É preciso despedida
Navego sem destino
Porque sei que no final
O que vale é a estrada
A minha é sob o sol














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